"No início era uma promessa para que a ilha de São Miguel, nos Açores, fosse poupada à fúria da natureza. Grupos de homens – os ranchos - mantêm viva esta prática, como se o sacrifício de percorrer a ilha a pé, ao longo de 300 quilómetros, com a cevadeira às costas, terço na mão, a rezar pelos seus e por em quem neles confia a sua oração, possa adormecer os vulcões. A fé destes homens e o seu poder de oração é inimaginável. Os romeiros não são santos, mas garantem que a romaria entre “irmãos” faz deles melhores homens."


Excerto de texto por: Ana Luísa Oliveira / JN
** Série de 12 retratos de um grupo de Romeiros, provenientes do Cabouco (Lagoa, Ilha de São Miguel), realizados em Março 2017.

A ORIGEM DAS ROMARIAS

Tradição oriunda de S. Miguel, ilha do Arquipélago dos Açores, as romarias quaresmais tiveram a sua origem, segundo se crê, no início do século XVI, em Vila Franca do Campo, primeira capital da ilha. Constituíram a resposta encontrada pela população de então para aplacar a fúria divina que, assolando essa localidade, soterrou os vila-franquenses e todos os seus haveres. Na sequência desta catástrofe natural, ocorrida no dia 22 de Outubro de 1522, os poucos sobreviventes ergueram uma ermida, consagrada a Nossa Senhora do Rosário, no local onde actualmente existe o Convento de S. Francisco. Todas as quartas-feiras, dia da semana em que ocorrera a catástrofe, a população da ilha, à noite, dirigia-se em romaria a esse local. Com o passar dos anos, algumas paróquias começaram a organizar romarias, que, ao longo de oito dias, percorriam a ilha a pé, parando em todas as igrejas onde fosse venerada a Virgem e/ou onde estivesse o Santíssimo Sacramento. Durante o percurso, entoavam o hino de Nossa Senhora (Avé Maria). No ano de 1962, o Bispo da diocese, D. Manuel Afonso de Carvalho, promulgou o Regulamento dos Romeiros, vinculando os responsáveis pelos ranchos ao cumprimento do mesmo, assim como à realização de reuniões prévias, de preparação. Essa orientação foi continuada por D. Aurélio Granada Escudeiro, em cujo episcopado foi criado o Grupo Coordenador das Romarias Quaresmais de S. Miguel.

O TRAJE ROMEIRO E A SUA SIMBOLOGIA

O Romeiro ostenta o bordão, xaile, lenço e saco ao ombro. Leva ainda dois terços, um ao pescoço e outro na mão para a oração durante o decurso de toda a romaria. O bordão serve para apoiar e facilitar o caminhar do peregrino pelas veredas e atalhos acidentados da ilha, o xaile e lenço por sua vez, para protegê-lo do frio e da intempérie. Embora o traje tenha originado das necessidades puramente físicas do romeiro em peregrinação, este transformou-se com o decorrer do tempo em simbolismos místico-religiosos: O bordão relembra o ceptro entregue a Cristo pelos romanos no seu julgamento ante Pilatos, o xaile a Sua Túnica, o lenço a coroa de espinhos do Seu suplício e o saco a Cruz a caminho do Calvário.